sábado, fevereiro 02, 2008

Janeirus Horribilis



Fez ontem 3 semanas que fui operada. Hoje peguei no carro e fui até Carcavelos, depois voltei e fui ao cinema. Já larguei as muletas, apesar de andar mesmo muito devagarinho. E isto é tudo bom.
Mas quando me perguntam como estou, como foi e se surpreendem do quão rápida foi a recuperação, a ideia que me vem à cabeça não é a da cirurgia, ou das dores do pós-operatório, ou do desconforto ao tentar procurar posição para dormir. Aquilo que me inunda é a recordação de uma dor imensa pela solidão, pelo egoísmo, pela indiferença das pessoas com quem eu mais contava que me ajudassem a ultrapassar estes dias.
Quais DVDs ou livros ou televisão...? Pura e simples companhia, uma sms de vez em quando, um telefonemazito, uma visitinha de 5 minutos, um agradinho, uma boa vontade, um gesto dedicado que fosse, um ananás, qualquer coisa teria sido muito importantes para mim. A falta destas coisas foi... devastadora.
Saio desta baixa com a sensação de que fui muito magoada, e que o joelho foi algo de secundário.
Tenho perfeita consciência de que, quando uma pessoa fica em casa doente, fica mais sensibilizada. Eu sei que tudo assume proporções que não tem, mas, da mesma forma, os gestos especiais se tornam tão mais reconfortantes.
Apenas o Nuno não me faltou. Posso encher a boca e o peito a falar do meu amigo Nuno. Sem estar comigo todos os dias, de cada vez que aparecia, mimava-me o suficiente para uma semana inteira, para uma vida inteira.
De resto, entre uma mãe incomodada, mas em espírito de missão, cheia de palavras desmedidas e sempre muito sacrificada em tudo o que fazia, a um pai que parece não ter percebido o que se passou, ou então já nem sabe que teve esta filha, a um ex-namorado/amigo (ainda bem que nunca lhe disse que era o meu melhor amigo, apesar de estar quase a oferecer-lhe o estatuto) que decidiu aproveitar a cirurgia para acabar com a relação e com tudo de bom que eu pudesse pensar dele, à flatmate que decidiu sair no mesmo mês da cirurgia e nem sequer mo comunicou, aos colegas da capoeira (colegas, não mais amigos) que nem às sms respondiam quanto mais responder aos convites para lanchar cá em casa (e pensar que, quando foram operados, eu estive sempre disponível para os animar, sem jamais pensar que um dia poderia vir a estar na mesma situação), até ao silêncio da agência em que ainda trabalho. Nada. Daqueles que me são mais próximos, nada. Nem da família, nem dos supostos amigos, nem dos colegas.... Comodamente devem ter pensado "a Sílvia é forte, a Sílvia não precisa, a Sílvia... quem é a Sílvia?" Ou nem isso.
Por outro lado, alguns estranhos foram mais atentos que aqueles que eu tinha como próximos. Quem me foi ver ao hospital ficou para sempre no meu coração, quem me veio buscar para dar um passeio, quem me visitou e me trouxe uma bola ou bolinhos. E o meu avô, que ligava todos os dias para me lembrar a raça a que pertenço: a uma que se importa com as pessoas e que resiste a estas provações.
Eu compreendo que uma semana de trabalho atarefada passa num ápice, enquanto que uma hora pode demorar uma eternidade para mim. Mas quando se gosta, há sempre um minuto, uns cêntimos, e não precisa de ser todos os dias.
Não há desculpa. Só desilusão.
Este mês foi doloroso de uma forma para a qual não existem analgésicos.
Nunca esquecerei, e algumas coisas, muitas coisas, vão mudar depois disto. Uma dessas coisas, sou eu.